Thiago Moura · Psicólogo ← Voltar ao site

Espaço artístico · Poesia

A arte, em suas diversas formas de expressão, permite-nos compartilhar vivências, experiências e emoções.

Nos atendimentos que realizo, quando há abertura e interesse por parte da pessoa, busco incentivar diferentes formas de expressão artística. Elas podem contribuir para o processo terapêutico e também para a elaboração do sofrimento que nos atravessa.

O sofrimento carece de escuta e acolhimento, e expressá-lo pode ser uma forma de cuidado.

Deixo aqui um pouco do meu trabalho artístico.

Há mundo

A folha guarda verdades que não coincidem com meus rabiscos.
Sem destino, a folha de outono repousou no solo.
Não havia do que se despedir.
Que é mundo?
Só — e ainda assim.
Me espantam as coisas,
e a angústia excitante de que poderiam não ser.
A pedra,
constato-a não clamar por morada.
Este lápis é no escrever,
junto as mãos humanas, sem interrogar pelo gesto.
O corpo sente o vento ir sem porquê,
doando à vela um caminho à terra.

A chuva desvelando o verde brilhante nas folhas;
e o odor inegável da união despretensiosa com o solo.
Os meus rabiscos apenas contornam.
Há mundo.
Há.
Esse estranho-familiar.
Estrangeiridade tão certa quanto o vir da noite.
Há outras verdades quando não escrevo.
Ser longe, fora e estrangeiro.
Fugidio de si em meio às coisas que te fizeram casa.
Não esqueça de que se esqueceu.
Junto a nulidade, o mundo pode brincar de ser.

O verme, rastejante e paciente…
aguarda o teu fim.
Não está no tempo que é o seu.
O fim de ser.
Clareira que se apagou.
Já não há mais.

Poesia bilíngue

Tu Mar Teu Mar

Español · Original

Hoy desperté con asombro.
Escribo en otras lenguas para convocar lo nuevo:
hablar de aquello que no conozco,
como tu amor.

Me siento vivo al recordar tus rarezas
y muero al olvidar tu aroma,
devorados por el tiempo.

En mi cuerpo,
la explosión de cinco mil estrellas.

Me hundo en el mar,
silencioso y sereno.
La profundidad me llama,
desmedida.

En la orilla,
velo.
La marea roza mis pies.
Me invita.

Y la vastedad de las aguas
pinta el cielo estrellado.

Português · Tradução

Hoje despertei com assombro.
Escrevo em outras línguas para convocar o novo:
falar daquilo que não conheço,
como o teu amor.

Sinto-me vivo ao recordar tuas estranhezas
e morro ao esquecer teu aroma,
devorados pelo tempo.

Em meu corpo,
a explosão de cinco mil estrelas.

Afundo-me no mar,
silencioso e sereno.
A profundidade me chama,
desmedida.

Na margem,
vigio.
A maré toca meus pés.
Ela me convida.

E a vastidão das águas
pinta o céu estrelado.

Reflexão

Physis

Hoje, respiro. Inalo o ar à minha volta. Sinto-o entrar por minhas narinas e caminhar por minha Physis. O sinto presente e sou passagem para ele. Algumas mudanças trouxeram pesar ao meu coração. Talvez, não propriamente o fato de algo mudar, mas a quebra de uma expectativa. Estava portando o peso de um mundo que precisou se transformar e ruir. Percebi que o sentido tem peso, embora não tenha massa, e que o querer aprisiona mesmo não sendo uma prisão com celas e barras sólidas.

E eu era, sou, o palco de tudo isso. De todo esse estar-aí.

Há algumas semanas, quando estava no sul do país, senti o cheiro da lenha alimentando o fogo. Senti o som crepitante da transformação. O fogo, assim, podia vigorar e permanecer – dar-se. O cheiro adentrando em minhas narinas, não só o ar. Há tempos que eu não lembrava que podia cheirar e que isso me fazia pertencer e estar com as coisas de algum modo.

O cheiro da lenha me trouxe uma sensação boa, por razões que desconheço ou que até não existam. Mas, isso pouco tem importância no acontecimento —

É como é.

Olhei à lenha e alguns pensamentos livres me ocorreram. Vi a lenha sendo consumida, mas não da maneira como nós humanos consumimos. Ocorreu-me se a lenha sentia algo com isso ou se ela se lamentava por sua mudança de estado em cinzas.

Silencio...

Ela estava lá sendo com o fogo e me permitindo ser o que naquele momento fui. Na manhã seguinte, já no quarto, abri a janela e deparei-me com um ente que na linguagem comum chamamos de Araucária. Há tempos meus olhos não atraiam para esse tipo de situação; de acontecimento.

Observo que minha percepção tem mudado – ou as coisas mesmas decidiram se apresentar de outro modo. Olhei em seus galhos e avistei um pássaro cantando, andando pelo tronco, despreocupado. Árvore como lenha, mas também como morada. Por fim, olhei para a majestosa e imponente aparição e a saudei com alegria.

Novamente, silêncio...